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O que te paralisa?

Por Flavia Possas · Publicado em 10 de setembro de 2026

Muitas das pessoas que me procuram para um programa de coaching estão paralisadas de alguma maneira. Dariam tudo para estar em outro lugar, outra posição, outra empresa, até mesmo outra carreira, mas não conseguem se movimentar.

Quem já passou por isso sabe como esse processo é doloroso: você se sente cada vez mais fraco, incapaz, patinando no lugar, e o tempo que passa inexoravelmente parece provar que é isso mesmo, você nunca vai conseguir se mexer.

Essa paralisia nos faz repensar muitas coisas sobre nós mesmos: começamos a contar novas histórias sobre nossa vida, revemos nossos conceitos sobre o nosso potencial e habilidades. Uma das falas mais comuns que já ouvi de pessoas nessa situação é: “Cheguei à conclusão de que sou preguiçoso. Não tenho a energia para fazer isso acontecer. Prefiro ficar aqui onde estou”.

Resolvi escrever sobre isso porque esse tipo de caso é o que mais me impressiona no coaching. Alguém chega com esse cenário, já no ponto em que se chama de incapaz e demonstra uma enorme vergonha de si mesmo, mas tudo que eu vejo na pessoa contradiz isso. Está ali na minha frente alguém claramente inteligente, cheio de ideias, com pensamentos complexos e raciocínio sofisticado. Que tem disciplina para produzir muitas coisas em outras áreas. Que tem grandes sonhos. Então qual é a verdade? Onde está a preguiça, a incapacidade?

É aí que entra um fator difícil de enxergar, principalmente para quem está vivendo essa paralisia. Algo que parece contraditório e que a pessoa reluta em reconhecer em si: o perfeccionismo. O padrão impossível.

Essas pessoas, aparentemente indolentes, na verdade são tão capazes que para agir exigem de si a perfeição absoluta, a garantia de que vai dar tudo certo e que farão um trabalho incrível.

Antes que você proteste e diga que esse definitivamente não é o seu caso, aviso o seguinte: todos perfeccionistas que já conheci rejeitam veementemente esse termo. Funciona mais ou menos assim: quem é perfeccionista nunca acha que está fazendo o suficiente. Portanto, o que faz está longe de ser perfeito e ele jamais poderia ser chamado de perfeccionista. Faz sentido? Por isso, leia com uma mente aberta porque talvez, mesmo não parecendo, esse seja seu caso.

Quando a busca pelo ideal paralisa

A questão central desse perfeccionismo é que ele não permite erros, por isso tudo deve estar perfeitamente alinhado antes da ação. Então se o caminho novo não parece ideal, se há risco de falhar, se não há garantias de que ele possui talento o suficiente, fica impossível seguir em frente.

Quem tem um padrão muito alto normalmente se especializou em fazer aquelas coisas nas quais tem certeza de que é incrível, e acaba com um medo enorme de tentar algo novo e ser mediano. Matam as ideias na cabeça antes mesmo de poderem aflorar porque não passaram pelo seu crivo. Não dão vazão à sua arte porque seu talento não é, segundo eles, excepcional.

Para o perfeccionista, ou algo é incrível, ou não merece existir.

Se você tem muitas ideias e vontades que vai deixando morrer, sem nem mesmo ter tentado, pode ser que esse seja seu caso. O medo do ridículo, da vergonha de falhar, é a areia movediça mais poderosa que conheço. Ela vai mantendo você cada vez mais preso, submisso, soterrado por sentimentos de frustração e fracassos imaginários.

A mentalidade de aprendiz

Eu digo tudo isso com o peso e conhecimento de quem já sentiu isso na pele. Na verdade ainda sofro mini paralisias toda vez que vou começar algo novo. Depois de passar por toda formação de coaching da Integral Coaching Canada e vir a conhecer com profundidade minha personalidade, percebi o quanto esse perfeccionismo é capaz de paralisar e emperrar nossas vidas.

Eu sempre fui a boa aluna e aprendi a só dar passos que fossem certeiros. Minha identidade dependia disso: se tirasse uma nota ruim meu mundo ia desabar, se não fosse excelente não seria ninguém. Minha mãe sempre conta que até para aprender a andar foi assim: ela jura que eu nunca caí, só comecei a dar os primeiros passos quando senti que conseguia me manter em pé.

Por isso começar algo novo como o coaching integral me exigiu um nível de desapego que eu desconhecia até então. Cada novo movimento que tive que fazer foi doloroso. Porque é impossível você começar algo do zero e já ser incrível naquilo. Ao começar por definição você é estabanado, faz besteira, leva uns escorregões.

Para caminhar para algo novo precisamos cultivar a mentalidade de um iniciante, nos permitindo errar, cair, fazer perguntas estúpidas e desenhos toscos.

E é aí que mora o maior paradoxo dessa história: se você quer ser realmente incrível, se superar, fazer algo grande, precisa aprender a ter uma mentalidade de aprendiz. Para atingir seus padrões, você precisa antes se libertar deles. Descer do seu salto e ver que não há vergonha nenhuma em estar tentando.

No nível de mudanças constantes em que vivemos atualmente, torna-se quase impossível se manter relevante e não ter que aprender coisas novas o tempo todo. Cada nova incursão nos joga nesse território onde nos sentimos engatinhando, e a melhor coisa que podemos fazer é ficar confortáveis nesse papel.

Quando dominamos uma mídia social, uma técnica de venda, uma tecnologia, algo novo já está emergindo. Aprender a conviver bem com essa incerteza foi uma das coisas mais valiosas que conquistei na vida. Nada mais libertador do que poder estar exatamente onde você está, com humildade e aceitação.

Se você está paralisado em alguma área de sua vida, tente enxergar se tem um padrão que você tem medo de não cumprir. Ouse dar um passo, por menor que seja, sabendo que vai ser desengonçado, esquisito e que sua obra prima não vai estar ali, perfeita, intacta, instantaneamente. Permita-se ser desarticulado, mediano, criticável e então poderá construir o caminho para a verdadeira genialidade.


Publicado originalmente no LinkedIn em 13 de novembro de 2017.

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