A vontade de ser autônomo. E o medo de lidar com a incerteza.
Por Flavia Possas · Publicado em 10 de setembro de 2026
Essa conversa é uma constante na minha vida.
Seja com clientes, alunos ou amigos, o questionamento é sempre o mesmo: "O que é preciso para ser autônomo? Como você teve coragem? Como lidar com a incerteza permanente?" A verdade é que toda vez que rola esse papo eu sinto aquela sensação de: “porque essa pessoa está perguntando isso pra mim? Ela não deveria falar com alguém muito mais experiente? ”.
Em alguns sentidos não considero que eu cheguei lá. Em outros, como ter encontrado o que eu amo e descobrir como viver disso posso dizer que sim, estou onde eu queria. Talvez ser autônomo signifique nunca ter certeza que você realmente chegou onde deveria chegar.
Quantos clientes são o suficiente? Quantos anos de experiência? Quanto reconhecimento? Quanto dinheiro no banco? Quanto questionamento. Mas o que você ainda não sabe, é que ser autônomo é aprender a lidar com a incerteza e a complexidade da vida de maneira mais leve e ao mesmo tempo mais responsável.
A incerteza é grande companheira da vida de qualquer um, só que quando temos um dia-a-dia mais estruturado, com uma rotina inflexível e salário caindo na conta todo mês, cercados de hierarquias e regras, temos uma ideia de controle, de previsibilidade. E a sensação de que alguém está tomando conta de tudo para nós.
Mas, na verdade, estamos sujeitos a grandes mudanças, impactos, abalos sísmicos, que podem mudar nossa vida do dia para a noite sem que possamos fazer nada, a não ser assistir em choque.
Quem já passou por uma doença séria, acidentes, golpes, decepções, traições, ou a morte de alguém próximo, já sentiu na pele o quanto na verdade somos frágeis e iludidos na nossa falsa sensação de controle.
A incerteza de viver como autônomo é muito mais mundana do que nossa incerteza existencial. Ela envolve lidar com sazonalidade, imprevistos, fluxos variáveis de renda e a inconstância que é lidar com clientes sem saber quanto você irá ganhar no mês que vem.
Não se engane, essa incerteza é muito dolorosa e já me tirou horas de sono. Mas a chamo de mundana porque existem maneiras de lidar com ela e torná-la bem menos descontrolada e assustadora.
Primeiro, é preciso criar uma estrutura que sustente o seu negócio como autônomo. Um modelo de negócios, um plano de marketing, sistemas e metas que lhe ajudem a manter um fluxo de clientes mais saudável e robusto.
O erro de muitas pessoas é acreditar que basta ir levando e as coisas magicamente se encaixam (erro que eu cometi por bastante tempo até entender melhor como eu poderia me posicionar de maneira mais consciente).
Segundo, uma das principais habilidades que você deve cultivar como autônomo é a capacidade de lidar com a sua ansiedade e com a sua autoconfiança. Ser autônomo é viver mini fracassos o tempo todo, desde um cliente que desistiu até uma parceria que não deu certo ou um novo projeto que não decolou.
Acreditar que a partir de um certo ponto tudo vai se encaixar e dar certo não ajuda em nada. Então alcançar certa serenidade no meio de tudo isso é fundamental.
Como fazer isso já dá pano pra manga (e assunto para um próximo artigo), mas eu diria que cada um deve achar seu caminho e que isso normalmente envolve maturidade emocional e espiritual (no sentido de se conectar com o significado maior do que você está fazendo e cultivar presença, o que não implica em nenhuma conotação religiosa).
Por último, o que mais me ajuda a lidar com essa incerteza é olhar o outro lado, para o que ganho todos os dias ao tomar esse risco.
Me permitir usufruir de toda a liberdade, autonomia e auto-realização que essa vida me proporciona. A cada dia que sou dona do meu tempo, que posso fazer meu dia como quiser, quando quiser, trabalhar do jeito que eu gosto, fazendo algo que eu amo, me sinto completamente privilegiada e disposta a trabalhar o quanto for preciso pra fazer isso acontecer.
Talvez pensar assim seja minha herança de economista, mas sempre estamos abrindo mão de alguma coisa se desejamos algo importante. E abrir mão de um salário fixo para ganhar liberdade e realização é uma troca que eu faria sem piscar, toda vez.
Publicado originalmente no LinkedIn em 2 de outubro de 2017.
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