Você percebe quando alguém te escuta?
Por Flavia Possas · Publicado em 10 de setembro de 2026
Por que será que acreditamos que a escuta ativa é uma habilidade invisível, passiva, que os outros não irão perceber ou valorizar? Quando eu trabalho com meus clientes de coaching para ajudá-los a enxergar melhor seus talentos, vejo como ainda temos preconceitos em relação a alguns tipos de habilidades.
Muitas vezes algum deles se decepcionou ao perceber que entre seus pontos fortes estavam capacidades como a de saber escutar, ter empatia. É como se acreditassem que elas não valessem tanto, fossem mais banais.
Quando falo em escutar, não estou me referindo a saber ficar quieto e não interromper alguém (isso é um pré-requisito). Trata-se de realmente escutar de forma ativa, com curiosidade, com a mente aberta, ouvindo em busca de padrões subjacentes, permitindo que algo novo possa ser aprendido ou construído. Isso é algo precioso. E trabalhoso aliás. Envolve muita concentração e uma atenção treinada.
E claro que percebemos quando alguém realmente nos ouve. Quando alguém faz perguntas certeiras, profundas. Quando outra pessoa reflete seu raciocínio de um jeito tão perspicaz que você mesmo entende melhor o que estava pensando. Quando você se sente visto, ouvido, valorizado. Se você já foi ouvido dessa maneira, sabe o quanto é raro e também o quanto é perceptível.
O oposto também é patente: pense em todas as vezes em que se viu frustrantemente falando com uma parede. Com alguém que estava com a cabeça em outro lugar, que queria fazer um monólogo ou que só pensava em rebater o que você dizia.
Quando tenho que escolher um médico, por exemplo, esse é um dos pontos principais que avalio. Não deixo de levantar indicações, histórico, formação. Mas já me deparei com médicos extremamente conceituados que simplesmente não ouviam. Sobre os sintomas, sobre o histórico, sobre as preferências em relação a diferentes riscos. E convenhamos que nesse caso não escutar, observar e entender as evidências é particularmente perigoso.
Pensando em tantos outros contextos, quantos erros não seriam evitados por um ouvido atento? Quantos briefings mal feitos causaram milhares de idas e vindas porque o cliente não foi compreendido? Quantas falhas de comunicação ou famigeradas brigas com arquitetos deixariam de ocorrer se a escuta fosse mais valorizada e desenvolvida?
Saber ouvir é um dos aspectos principais para se cultivar uma mente aberta, científica, que está disposta a repensar seus conceitos, absorver novas informações, atualizar seu conhecimento.
Se essa é uma habilidade que você deseja desenvolver, comece buscando silenciar sua mente quando estiver em uma conversa. Você consegue se concentrar em realmente ouvir o outro ao invés de planejar sua próxima fala ou argumento? Isso pode ser mais difícil do que parece, mas os efeitos aparecem rápido. Os outros percebem quando você está realmente aberto, presente, atento. E a mudança que essa escuta pode provocar é poderosa e muito necessária.
Publicado originalmente no LinkedIn em 26 de abril de 2022.
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